quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Graciliano Ramos

Eu não acreditava nos meus olhos
Nem acreditava nos meus ouvidos

_Fernando, in: Infância.


***


Aconteceu que o nascer do dia coloriu as gotas de chuva que caiam do telhado. Eu vi tudo pela janela, envolta em quenturas acolhedoras do lar. Logo estaria perto dela, chuva, lágrimas do céu. Seriam o tapete para meu caminho.

Sucederam coisas, no miolo do dia, que não importam muito... Houve todas as horas, houve. Houve as mesmas pessoas (que me enfadam), houve. Houve vozes que me vem sem rosto e sem corpo, e os rostos que se apresentam sem voz, e os corpos desconhecidos. Houve. Houve tudo o que há sempre. De um tudo que faz parecer que a gente está no mesmo dia - mas com roupa diferente.

Foi tudo igual.

Diferente mesmo só o sorriso dela. Espontâneo em demasia, deu-me, como poucas vezes experimentei na vida, a impressão de que era realmente feliz. Feliz de felicidade cheia, forte, bem amparada, coisa impossível de ruir.

Nas mãos, unhas curtas e vermelhas; aos pés, chinelos (ora veja, chinelos em dia de chuva!?). Uma mochila nos ombros, camiseta, short e presilha nos cabelos dourados - cor da chuva que me deu bom dia.

Eu pedi para segurar a mochila, e foi aí que ela me sorriu. Sorriso puro, inteiro, limpo, sem reservas. Exatamente o sorriso que eu queria ter, não para mim, antes para oferecê-lo aos outros, aos meus, a todos. Ela deve fazer isso.

Era uma mochila de retalhos, tecido meio gasto, quase velho; macia, se queria travesseiro ou animalzinho de pelúcia. Mochila leve, em paz. Não quis a mochila para mim, não gosto desse estilo de "bolsa". Talvez tenha querido ser a mochila. Ser carregada nas costas dela por onde eu fosse.

Sou, no entanto, apenas retalhos.


Meu beijo, meu carinho,
*Sus-pensa.

Se precisar fugir do silêncio....

E nas pontas dos pés comigo: